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t r i c i c l o ck

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  1972 foi um ano importante para Ângelo de Sousa, um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos. Se bem que a sua versatilidade dificulte qualquer classificação, o minimalismo abstracionista é, ainda assim, a melhor maneira de o definir. Partindo de Malevich, que foi de onde partiram todos os minimalistas, Ângelo de Sousa recusa o negacionismo de Ad Reinhardt e das suas telas completamente negras repetidas e numeradas sucessivamente que, de supressão em supressão, exibem a monocromia negra absoluta como estado terminal. Seja este extremo entendido como um manifesto nihilista ou como plenitude ascética, é sempre terminal. Não foi este o percurso de Ângelo de Sousa que, partindo igualmente do suprematista russo, encontrou na subtileza dos pequenos detalhes quase impercetíveis, nas finíssimas velaturas, nas ligeiras variações lumínicas e nas matizações cromáticas uma nova realidade que se abre ao minimalismo vanguardista. É um mundo nanométrico e molecular que o negro absoluto de Reinhardt não considerou e que Ângelo de Sousa abre à exploração estética.

   O mais interessante deste caminho é que ele exige a participação do contemplador, do público, do nosso olhar. Em 1972, o tal ano importante, o artista nascido em Lourenço Marques recebeu a sua primeira distinção, uma menção honrosa no prémio Soquil, no ano em que Joaquim Rodrigo é contemplado e em que o prémio é suspenso. Nesse ano ainda, Sousa abandona o seu trajeto com os Quatro Vintes e pinta o óleo que pertence hoje à coleção do Museu do Chiado (sem título; óleo sobre serapilheira; 1972).

   A citação de Malevich é evidente e matricial, gerando um efeito ótico e uma ambiguidade conforme se considerem os dois triângulos retângulos como quadrado apartado ou o ângulo reto interior formado pelas duas hipotenusas que, prolongando-se imaginariamente para fora da superfície retangular da tela, insinuam um quadrado branco, cujo ângulo superior se observa. Desta forma, a pesquisa minimalista depura o quadrado não apenas pelo fracionamento em dois triângulos retângulos, o que não constitui inovação alguma, mas pela simples exibição do ângulo reto. Este basta para que se considere uma obra. Menos do que isto é nada. O ângulo reto é então a marca mínima e irredutível. Suprimi-lo implica a queda na monocromia nihilista e absoluta. Ângelo de Sousa evita essa depuração final e, ao invés, dá o primeiro passo no sentido de uma busca inteiramente nova. Este ângulo é, assim, para o professor portuense, como se fosse um cogito cartesiano: simultaneamente uma revelação e um sólido alicerce num percurso que, de 1972 até à sua morte em 2011, constitui um dos mais ecléticos, puros e originais das artes plásticas contemporâneas.