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t r i c i c l o ck

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[Bertrand Lavier: Canon, 1981; Steinway & Sons; 1987 (detalhe); Japy; 1987]

   As diversas fases / chantiers do percurso de Bertrand Lavier, apesar de bem circunscritas temática e cronologicamente, têm fios condutores, traços de continuidade que permitem detetar uma autoria em evolução, um desenvolvimento, ainda que não linear, que emana de uma matriz conceptual que, embora dinâmica, germina no seu interior as múltiplas facetas da sua obra. Quer dizer, por outras palavras e metaforicamente, recorrendo ao campo da horticultura: é como se do mesmo canteiro, que é o potencial criativo do artista, brotassem, em momentos sucessivos e cíclicos, diferentes florescimentos, exibindo uma raíz comum mas incluindo-se em categorias distintas, dentro de um sistema coerente.

   Neste sentido, uma das raízes autorais, seguramente a mais reconhecível a par da inspiração em Duchamp, e que transparece em muitas, mas não todas, as fases do trabalho de Lavier é a expressão vangoghiana do gesto, plastificado através de vigororsas pinceladas de empasto aplicado sobre um suporte. Trata-se de uma pasta que tanto reveste totalmente um objeto comum (por exemplo, uma máquina fotográfica, um piano, ou um relógio de parede), como cobre uma superfície plana, não para formar a base de uma pintura posterior, mas assumindo-se como a expressão estética em si, num exercício de densificação formal em que o objeto pintado é simultaneamente representado e representação de si.