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t r i c i c l o ck

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   Filippo Brunelleschi foi uma das mais importantes figuras do Renascimento florentino, período em que surgiu um novo método de conceber e representar o espaço, revelando uma nova relação do Homem com o Mundo. Para os pintores flamengos, esta nova realidade foi assumida empiricamente, ainda que satisfazendo as exigências de uma sensibilidade naturalista, ao passo que os florentinos trilharam outro rumo, ainda que balizados nos mesmos pressupostos culturais. Na verdade, a obsessão científica dos italianos levou-os a buscar certezas e não subjetividades, como preconizava o famoso franciscano Luca Pacioli, mestre matemático e amigo de Leonardo. Em Itália, ao contrário da Flandres, o novo sentimento do espaço não se fundamentou no tratamento ambiental da luz, como nos óleos de Hubert van Eyck, segundo Kenneth Clark o grande inovador do género paisagístico no Norte da Europa. Ali, e especialmente em Florença, o objetivo era equiparar a arte e a ciência, fundidas pelo recurso à linguagem matemática. O desafio era estabelecer as leis da perspetiva científica, destacando-se os nomes de Léon Battista Alberti, Piero della Francesca e, claro, Brunelleshi.

 

   O método desenvolvido pelo autor da cúpula de  Santa Maria del Fiore tem tanto de lendário como de revelador desta ânsia matematizadora. Conta-nos um seu contemporâneo que Brunelleshi representou o famoso batistério de S. João, fronteiro à catedral florentina, reduzindo todas as linhas de projeção a uma escala representável e seguindo as regras da proporção. Para que a reapresentação alcançada fosse captada de acordo com o idealizado, Brunelleshi fixou um ângulo de visão, o único que permitiria a tomada correta da perspetiva, perfurando o quadro no local exato onde estabeleceu o ponto de fuga. O espetador era então obrigado a posicionar-se atrás do quadro perfurado, espreitando pelo orifício e observando a representação projetada através de um espelho colocado defronte, à distância exata e pré-determinada pelo autor. Para Brunelleschi, a crença na objetividade geométrica era inabalável. Havia no entanto um problema: o céu e a sua imensidão. A vastidão do céu, sem ponto de fuga, não é representável. O infinito não cabe na projeção geométrica, não há escala que se lhe aplique e o próprio génio do florentino reconhecia aqui o seu limite, recorrendo a artifícos para suprir essa incapacidade. 

 

   Temos assim que este método sobrepõe a representação à realidade, limitando para isso a perceção do apreciador ao exigido pelo artista. A univocidade é absoluta, a genialidade do criador afere-se pelo grau de fidedignidade da representação, colocando a passividade como condição e assumindo-se a pintura, elevada pela aplicação das leis da ótica ao estatuto de ciência, como modelo do próprio espaço que respresenta. Na verdade, ao se presumir que as leis da perspetiva geométrica fornecem padrões absolutos de fidelidade, teremos como decorrência a anulação da subjetividade, das diferenças de estilo e dos modos de representar. Tal foi a a ilusão da modernidade gerada no Renascimento que, a longo prazo, salvaguardado o anacronismo e perdoada a extrapolação para o plano político, estará na base dos totalitarismos contemporâneos.

 

   É esta a grande aspiração dos renascentistas, como nota Jean Delumeau ao apresentar o enredo do Doutor Fausto como sintomático desta utopia. Esta personagem, que terá tido existência real no séc. XVI, inspirou a obra do dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1564-1593). A ambição de se equiparar a Deus, em poder e sabedoria, levou-o a um pacto com Mefistófeles. Fausto é, no dizer de Delumeau, «o representante de um século ambicioso, ébrio de liberdade, de glória e de ciência, mas cujos desejos ultrapassavam bastante aquilo que é possível.»

 

   Que os desejos eram excessivos sabêmo-lo hoje, depois de Auschwitz e Hiroshima. Os desastres contemporâneos, desde o Titanic a Fukushima, passando por Chernobyl e pelo Columbia, mostraram que a ambição de Fausto ultrapassava os limites do possível. Correlativamente, a ciência contemporânea foi desfazendo o mito da objetividade absoluta, pelo que podemos falar numa nova forma de projetar o nosso futuro, mais humilde e ecológica, o que é dizer, menos faustiana e dominadora. Mais respeitadora do céu, esse símbolo de resistência à hegemonia do homem.

 

   No que à representação artística diz respeito, e no mesmo sentido, já Nelson Goodman demonstrou, carreando argumentos da ciência ótica, que o olhar fixo, exigido como requisito pelas conceções de Brunelleschi, é impossível e é «quase tão cego como o olhar inocente».  Por irónico que possa parecer, e se a modernidade se fez com a perspetiva e a simulação da tridimensionalidade, a contemporaneidade e a pós-modernidade fazem-se com a sua negação e com a afirmação de novas categorias espacio-temporais, bem como a proclamação dos direitos individuais, das poéticas pessoais, da libertação do olhar e pela convocação do espetador.  

 

   Em vez de se conceber como obra fechada e unívoca, a obra de arte do nosso tempo, desde Picasso e Duchamp, declara-se como uma produção aberta, dinâmica e convidativa, apelando à intervenção criativa do observador. Do ponto de vista teórico, deve-se a Umberto Eco a sistematização, nos finais da década de 50 do séc. XX e nos inícios da década seguinte, dos princípios desta nova tendência para a «abertura da obra», «acompanhada por uma evolução análoga da lógica e das ciências, que substituíam os módulos unívocos pelos módulos plurivalentes», substituindo «a tendência para a univocidade pela tendência para a possibilidade que é típica da cultura contemporânea».

 

 Regressando ao plano político, parece impossível dissociar esta tendência contemporâena da afirmação das democracias ao longo da segunda metade do século XX. São dois fenómenos paralelos: o abandono das estéticas unívocas e a democratização do mundo. Basta lembrar que, em 1900, havia 43 nações independentes, algumas colonizando vastas extensões territoriais. Dessas, apenas 6 eram democracias. Atualmente, contam-se 193 países, sendo que 51, de acordo com o índice de Democracia instituído pela revista «The Economist", são países autoritários que subjugam 37% da população mundial. É muito ainda mas, pela primeira vez na história, é uma minoria. 

   Apesar de serem ainda muitos os humanos subjugados por tiranias e de a maioria das democracias listadas nesse índice serem consideradas imperfeitas, a verdade é que nunca tanta gente teve tantos direitos e gozou de tanta liberdade. Por isso, podemos dizer, que uma vez abandonadas as utopias faustianas e os sistemas unívocos, o azul do céu deixou de ser um problema e voltou a ser um horizonte de esperança.

 

© Foto: Francisco Jesus