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t r i c i c l o ck

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14 Mar, 2018

O problema grego

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   O Partenon, apogeu da arquitetura dórica, construído no séc. V a. C. num momento de fulgor artístico só repetido na Florença renascentista, é o maior símbolo do espírito ateniense. A beleza sóbria, racional, harmoniosa, simétrica, definida em função de uma idealidade, ambiciona a realização da perfeição através do domínio da proporção matemática. A planta, calculada originalmente em pés áticos (1 = 0.308 m), mede aproximadamente 30 metros por 70 no estilóbato. É preciso entender isto – a relação entre as partes – para se entender o espírito grego.

  O Partenon onde Fídias deixou lavrado o seu inigualável génio, é uma das maiores realizações arquitetónicas da Humanidade, não por ser perfeito, mas por ser quase perfeito. É neste quase que se vislumbra o génio, assim definido enquanto perfetibilidade irrealizável.

   Vejamos a razão da impossibilidade que ditará o abandono da ordem dórica. O problema está no friso. É um problema que se coloca apenas nos templos prostilos (com uma colunata na fachada principal) ou perípteros (rodeados por uma colunata) e retangulares. É uma minudência, no entanto, suficiente para ditar a falência de um princípio construtivo, pois que denuncia uma imperfeição. O friso dórico deve obedecer a três regras:

a) Um triglifo sobre cada coluna e outro sobre cada intercolúnio;

b) No vértice angular do friso não podem estar métopas.

c) Os triglifos devem estar colocados exatamente acima do centro da coluna e do intercolúnio.


   Ora, quem se entregar ao estudo do problema, muito complexo e aqui infantilmente simplificado, verá que é impossível conciliar a regra c) com a regra b). Isto é, para que os triglifos estejam exatamente ao centro, o remate angular não pode ser feito por dois triglifos iguais e contíguos.

   O diagrama, adaptado da obra citada no final, ilustra a irresolubilidade do problema.  O esquema 1 mostra como a regra b) e c) são cumpridas, tendo porém como exigência que os triglifos sejam tão largos que não seria possível alterná-los com métopas, sendo então preferível o friso contínuo à maneira jónica. O esquema 2 cumpre as regras c) e a), mas falha a regra b). O esquema 3 desrespeita a regra c).

   Tentaram-se várias soluções para obviar ao problema que é, diga-se outra vez, muito mais complexo do que a simplificação que se apresenta. Por exemplo, a ampliação da largura dos triglifos, contraindo o intercolúnio angular (contração simples) de forma quase impercetível, ou até, para tornar ainda mais impercetível o quase impercetível, absorvendo os centímetros excessivos pela contracão dos dois intercolúnios contíguos (contração dupla). Outros alteraram o esquema base e introduziram dois ou três triglifos para cada intercolúnio, e já não um ao centro. Vitrúvio aconselhará o uso de meias métopas nos ângulos do friso. Outra hipótese é o espaçamento das colunas não ser igual, diminuindo do centro em direção às extremidades. Tudo se tentou, mas tudo são truques. Apesar de a imperfeição ser centimétrica e não captável pelo olho humano, a impossibilidade é matemática. A perfeição não é atingível e a ordem dórica foi abandonada. É este espírito grego, prometeico, ambicioso e angustiado, perfecionista e com propensão para o absoluto universal, que nós herdámos da Antiguidade Ateniense. É o nosso problema grego.

 

D. S. Robertson: Arquitetura Grega e Romana; São Paulo; Martins Fontes; 1997; pp. 125 e ss