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t r i c i c l o ck

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19 Mai, 2020

Viajantes

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   «Afonso Vaz, cristão-novo, natural de Abrantes, mercadejava por Castela. (...) Em 13 de março de 1591, partiu de Castelo Branco [1] atrás de um mercador lisboeta seu devedor. Gastou 10 dias de Castelo Branco até Madrid [2] e outros dez a Alicante [3]. Em Alicante embarcou numa nau genovesa que demorou 16 a 17 dias a levá-lo a Livorno [4]. De Livorno a Veneza [5] gastou 10 jornadas. (...) De Veneza navegou para Corfu [6] com dois portugueses (...). Gastaram 19 dias. De Corfu para Constantinopla, 36 [7]. Encontrou judeus naturais de Castelo de Vide, da Guarda e de Guimarães, e o doutor Henrique Henriques, de Setúbal, e finalmente o seu devedor Bernardo da Cunha. Chegou em novembro. (...) De Constantinopla recuou para Salónica [8]. (...) De Salónica retornou a Veneza [9] numa galé de mercadorias. (...) Daquela cidade veio por terra a Madrid [10] e a Barcelona [11]. Voltou a Génova [12] e seguiu para Ferrara [13]. (...) De Ferrara viajou por terra para a Alemanha [14] e de lá para Cracóvia [15], onde encontrou Francisco Dias, doutor médico de Trancoso, reconciliado em Coimbra. Em Cracóvia arrependeu-se de ter abraçado o judaísmo e pediu remédio a um jesuíta. (...) Os judeus cuspiam quando Afonso Vaz passava. (...) De Cracóvia veio a Hamburgo [16]. Encontrou gente de Abrantes e de Castelo Branco. Seguiu para Antuérpia [17] e outras cidades da Flandres [18]. De lá embarcou para Sevilha [19] onde os inquisidores o remeteram à Inquisição de Lisboa. Interrogaram-no, mas não o sujeitaram ao Cárcere nem ao sambenito.»

   A perseguição de Afonso Vaz ao seu devedor descrita por António Borges Coelho («Os Filipes»; Lisboa; Caminho; 2015; pp. 95-96) mostra como os judeus ajudaram a fazer a Europa num tempo muito diferente dos romeiros e peregrinos como o monge Aimery Picaud que, na Idade Média, escreveu o Códice Calixtino, o primeiro itinerário de peregrinação a Santiago de Compostela. Agora, nos finais de quinhentos, corre-se para cobrar dívidas, para manusear mercadorias, passar letras de câmbio, contar e trocar moedas, acumular capital e assegurar crédito. Mais ou menos por esta altura, Cervantes gerava a mais extraordinária personagem da literatura europeia, o Quixote, um cavaleiro medieval desajustado no tempo. Poucos anos antes de Afonso Vaz partir de Castelo Branco em busca do caloteiro que acharia em Constantinopla, também D. Sebastião o mais quixotesco dos reis, sucumbia em Marrocos por razões bem diferentes. Para muitos, ele foi o «último cruzado medieval»

   O mais curioso no périplo de Afonso Vaz, que não peregrino nem aventureiro, é que a sua rota condiz com os limites da Europa: exclui a Rússia, que só será europeia com Pedro, o Grande e a fundação de S. Petersburgo, mas inclui a Turquia, o que é muito significativo, ainda mais nos tempos que correm; a Escandinávia e a Grã-Bretanha só não são nomeadas, mas são geoestrategicamente incluídas com a passagem por Cracóvia, Hamburgo e Flandres. Neste sentido, a opção estratégica do Desejado é igualmente muito significativa, é um despiste histórico, na medida em que está dessintonizada com o seu tempo e ditará o afastamento de Portugal do tabuleiro europeu até 1986. Afonso Vaz é judeu, vai à Turquia islâmica e atravessa países reformados, enquanto Sebastião vai combater infiéis e espalhar cristandade.